Amor real ou imaginário?


Estive assistindo ao filme Encantada, da Disney, que é voltado para o público infantil mas acredito que todas as pessoas gostam ou já tenham gostado de algum desenho ou filme da produtora.
Neste filme em especial, tem duas formas de entendê-lo: se uma criança assistí-lo, encontrará todo o enredo de um conto de fadas, porém, se um adulto assistir entende a história do filme sob outra visão.
Ele possui um conto infantil gracioso, com musical, muitas cores e magia, típico do estilo de Walt Disney.
Resumindo, fala sobre uma garota muito especial que sonha com o “príncipe encantado” e acredita que ele virá e que eles se encontrarão e trocarão o “beijo de amor verdadeiro” e assim “viverão felizes para sempre”.
O tal “príncipe” (com direito a roupa e cavalo branco) aparece e eles se encontram e já se “sentem apaixonados” e marcam o casamento para o dia seguinte. Porém o moço tem uma madrasta má e egoísta que não suporta a idéia de seu enteado casado e muito menos uma sucessora de seu posto como rainha.
A madrasta megera, no dia do casamento, se transforma numa velhinha e pede que a mocinha bonitinha e ingênua a acompanhe próximo a uma fonte dos “desejos” e simplesmente empurra-a para dentro da fonte/poço, mandando-a para um lugar triste, onde a felicidade passa longe de ter um final feliz… a Realidade (a Terra).
A garota cai neste mundão de Deus e se sente perdida, procurando e perguntando as pessoas o caminho de volta para sua terra natal. No entanto, ela é acudida pela filha pequena de um jovem e belo advogado (abandonado pela esposa) e bem sucedido que a leva para casa garantindo a moça um táxi de volta para casa. Neste meio tempo, ela acaba dormindo no sofá e o belo rapaz se apieda da moça deixando-a ficar.
No dia seguinte, a moçoila faz todo o serviço de casa (geralmente homens que moram sozinhos são um pouco desorganizados) com ajuda dos animais apenas atraindo-os com sua bela voz. Para ela tudo é lindo e maravilhoso, o mundo e as pessoas possuem corações tão bons e puros quanto ao dela. E repete várias vezes que precisa voltar para encontrar seu “príncipe” para se casarem ao qual terão seu “beijo de amor verdadeiro” e assim viverem “felizes para sempre”.
Com o passar do tempo e a espera do “amado”, ela acaba aprendendo várias coisas acerca da “realidade” com o belo rapaz, e a garota também mostra a ele, toda a beleza do amor verdadeiro, que é a força mais poderosa do mundo.
Por fim, numa discussão com o jovem advogado, ela percebe quem é verdadeiramente o “príncipe”, sentindo de perto o que ela acabou descobrindo: que ela estava se apaixonando por ele realmente. Enquanto isso, o “príncipe” da sua terrinha a encontra e, então, ela sente que não é mais aquilo que esperava que fosse, e o que sentia por este “príncipe” do seu mundo não é a mesma coisa que sente com o “príncipe” da realidade.
A madrasta aparece novamente num baile dando a moçoila uma maçã envenenada e, acaba mordendo, e em seguida adormecendo e, como todos conhecem esta historia das antigas, só poderá ser despertada pelo príncipe encantado com um beijo de amor verdadeiro. O príncipe-dos-contos-de-fadas a beija, então, e nada acontece, enquanto que, quando o príncipe-do-amor-real, beijando-a, faz quebrar o encanto e a desperta.
Agora, analisando todo este filme, há várias interpretações que podemos agregar com as formas arquetípicas dos personagens, a história em si e as frases subentendidas.
Uma das análises é referente ao contexto: amor. O amor é o sentimento mais nobre do mundo, mais forte e, sua força, é realmente inigualável. Em se tratando de relacionamentos, acredita-se que há uma mensagem valiosa para as pessoas (homens e mulheres) que acreditam no amor-romântico, ou para as “cinderelas” de plantão e os “mocinhos” prontos a prova.
Algumas pessoas costumam ter uma visão imatura acerca do amor, idealizando o “amor-verdadeiro” como num conto de fadas, que o príncipe (sa) encantado (a) vai surgir naquela esquina e bater a sua porta… ou simplesmente esperam que a pessoa certa seja estereotipada, se não, não são interessantes a ela.
Quando idealizamos criamos todo um cenário para que este típico amor romântico, onde o príncipe (sa) nos virá salvar da torre longe das garras da bruxa malvada (que é a realidade, ou as máscaras da ilusão em que a pessoa vive e acaba isolando as oportunidades). E quando o amor verdadeiro nos aparece, aquele que tanto esperamos, não conseguimos vê-lo, pois não estamos preparados para enfrentar um tipo de amor nobre e forte, ou seja, não estamos maduros suficientes para nos conhecermos e aceitarmos através do outro.
O que se entende também da história, são os arquétipos da moça ingênua, que acredita no seu sonho “encantado” de que o príncipe virá, a própria ingenuidade de não poder enxergar o outro como ele realmente é, ou também pela escolha de um parceiro que seja-lhe compatível, ou também sobre as experiências que tem de passar para uma melhor definição quanto ao perfil amoroso que ela deseja.
Ela tinha duas opções: seu amor-conto-de-fadas e o seu amor-real.
No amor-conto-de-fadas, tudo não passava de um sonho infantil e que nada mais existiria e que o “felizes para sempre” já era o suficiente para o relacionamento, sem conhecê-lo suficientemente bem e “reconhecendo-o” através de seus sonhos/idealizações.
É o que acontece muitas vezes conosco, idealizamos de tal forma relacionamentos e pessoas que depositamos todas as nossas expectativas e responsabilidades em cima do parceiro (a), e futuramente, acabamos sufocando-os (as) e, nós mesmos começamos a enxergá-los (as) como realmente são, ou seja, os véus de ilusão caem e a verdadeira face vem à tona. Então, nos decepcionamos, achamos que o mundo e, a própria pessoa amada, são culpados de nosso sofrimento, de nossos erros e que, no entanto, somos nós mesmos os criadores deste vitimismo todo.
Aí, o “príncipe encantado” vira um sapo, um chato, um nada-a-ver…
Neste drama, existem pessoas que não enxergam esta realidade vital e entram numa roda de vícios de relacionamentos não construtivos, doentios ou até mesmo de total anulação, acreditam que aquilo é um “carma” ou o “melhor” que elas merecem.
A segunda opção, a do amor-real, onde se depara com uma experiência totalmente diferente daquilo que tinha idealizado, vendo o outro como realmente é, com suas limitações, dando-lhe todas as possibilidades de se conhecer através do outro, afinal, pela primeira vez, ela havia se sentido “zangada” pela primeira vez, sendo ele mesmo quem a ensinou o que era este sentimento. Ele e ela eram eles mesmos, demonstrando suas verdadeiras formas de ser, convivendo juntos sob um mesmo teto, conhecendo-se, entreolhando-se, conversando sobre idéias e ideais, aprendendo a amar.
Então, quando ela se depara com amor-real, vê que poderá ter possibilidades maiores que o amor-romântico: um encontro, uma conversa com troca de experiências, um carinho e um cuidado diário…
Interpretando, também, quanto a queda da personagem no mundo real, onde a temática utilizada pela madrasta para enviá-la a Terra era que o final passava longe de ser feliz, referindo-se a famosa frase final de contos: “… e foram felizes para sempre…”, mostra que a realidade é bem diferente dos contos, que a felicidade propriamente dita depende de fatores, pois como sabemos, as pessoas possuem altos e baixos, enfrentam momentos de profunda tristeza e outros, de pura alegria.
Vivemos num mundo dual, onde somos dotados de sentimentos antagônicos e experiências que nos dão oportunidade de variar nosso estado de espírito.
Afinal, viemos todos para sermos felizes, e que a felicidade que tanto procuramos está dentro de nós mesmos, então, as circunstâncias podem ser adversas, porém, a finalidade delas é de evoluirmos para sermos seres plenos.
E para finalizar a interpretação, vem o famoso beijo-de-bela-adormecida, que o próprio conto traz. A maçã envenenada entregue pela bruxa, é a própria ilusão, quando não identificada pela pessoa, ela realmente torna-se um veneno para alma, podendo trazer profundas cicatrizes nela.
O beijo é algo muito íntimo e profundo, pois sua simbologia, juntamente com a boca, que é a fonte de onde verbalizamos o que pensamos e sentimos, é pelo beijo que trocamos sensações com outra pessoa.
A boca pode veicular o bem e o mal, pois pode expressar a verdade, a bondade e a gentileza ou pode expressar a mentira, a agressividade e o conflito. O beijo é um veículo do que há de melhor em cada um de nós. Pode comunicar um pouco do mistério da nossa alma, o que pensamos ou sentimos retratando o que temos de mais íntimo. Quando duas bocas se encontram, mesmo que na maioria dos casos as pessoas não tenham consciência disso, estão ansiando por trocar o que têm de mais íntimo, de mais essencial.
Então, o ato de beijar é, além de uma troca de energias das almas, desperta o que há de melhor, as sensações que temos diante uma outra pessoa.
Transpondo ao beijo de amor do filme, o beijo é a porta que desperta a personagem do amor-de-contos-de-fadas para o amor-real. É naquele momento que ela se dá conta de quem realmente é o “príncipe” que havia “sonhado” um dia.
Muitos filmes atuais trazem este contexto do amor-romântico, sensual, idealizado, com dramas e aventuras que, por mais que não vivemos neste mundo, nos fazem sonhar e emocionar com suas mensagens. São histórias diferentes, podendo ser tanto histórias de vidas reais quanto ficções e sonhos do próprio diretor.
Esse texto não é uma crítica a filmes românticos, e nem ao amor-romântico. Seria uma abertura dos olhos da alma, pois quem um dia não sofreu por um amor iludido achando que seria para eternidade?
Trata-se apenas de uma das interpretações de um processo absolutamente normal que o ser humano passa pois envolve sentimentos, que muitos de nós, não têm controle, podendo acontecer a qualquer instante tanto uma paixão fulminante efêmera quanto um amor, calmo e cultivado com o tempo, com dedicação e respeito.
Camilla M. (05/06/08)

Publicado por

Camila Moreira

Mulher, ama o conhecimento, o saber e a natureza. Formada em química, massoterapia e seu novo encontro com o Sagrado através da aromaterapia. Uma apaixonada pelas terapias alternativas e complementares e bem como pelas "logias" da vida.

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